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Saudade do tempo em que eu era mais eu, ou mais uma ficção para os leitores
Tenho frio. Tenho mais duas balas de leite. Uma de hortelã. Sopra. O vento mais forte, o outono com as idílicas folhas amarelas. Aqui não há folhas, só flores roxas das quaresmeiras.
Chove? Não sei. Não ouço. Há muito me desliguei do profano, do mundo lá fora, de suas idiossincrasias. Não acordo cedo: não gosto. Durmo tarde. Meus olhos pretos denunciam o momento de ir pra cama; meu útero ferve em vermelho, o sangue intoxicado de nicotina e tristeza.
Hora de ir. Pra quê? Fico. As pinturas, desenhos, imagens, esperam. Podem esperar. É hoje o dia. Anunciarei minha partida e chegada, o dia em que meus olhos – cegos – deixarem realmente de ver, para entender tudo. Amanso. Amando.
De amor não sei mais nada. Disseram que eu estava perdida. Ainda estou. Apontaram mil dedos e cravaram olhares indóceis. Deixei o tempo correr, e correu.
Agora, um refrigerante, água doce, satisfação em revê-lo. Deixa um abraço para amiga polonesa, ela deve cantar bem.
Deixa um abraço aqui comigo, eu acho que preciso mais, e ademais, não sei cantar bem.
Corta-me o coração em pedaços grandes, grossos, azulados. Corta, ele não serve mais. Não me baliza, o cérebro está cansado. Meus dedos ficam roxos, tenho medo de morrer cedo demais, a vida dói muito.
Reclamo sim. Reclama você também, não espera muito. Não há conforto que não traga, em si, alguma perda. Amar não é ter conforto. Amar é ter algum parentesco com o homem que morreu na cruz clamando pelo Pai. Será?
As estrelas continuam sorrindo, queria ser uma delas; alguma lenda diz que os grandes tornam-se estrelas quando morrem. Serei grande?
Não preciso de mais perguntas, de mais respostas, de mais nada. Preciso de um abraço apertado, uma cama quente, aconchego. Ainda sonho com cortinas brancas rendadas, jardins com violetas e rosas, crianças brincando nas escadas e eu de vestido. E meu homem ali, aparando as flores e me trazendo uma delas, à tarde, pelo puro prazer de me ver. Sorrir. Homem assim existe, eu já conheci. Mulher assim é que não existe.
Escrito por Luciana M. às 22h21
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Aos arianos queridos
Muitos amigos e amigas queridos e adorados nasceram nesta época do ano, entre março e abril. São pessoas criativas, alegres, joviais e, claro, mandonas, temperamentais mas deliciosamente verdadeiras. Não há sombras nos olhos de um ariano. Eu bem sei. De todas, a característica que mais me apaixona neste signo é esta: transparência. Sou capaz de saber exatamente e com detalhes se um ariano está triste, alegre, apaixonado, tristonho, ou pior: bravo comigo!
Como minha memória já foi mais acurada, dedico este post a todos aqueles que brilham estes dias. Fazer aniversário é uma das coisas mais legais da vida, pelo menos pra mim. Um beijo enorme a todos os meus queridos arianos: Giuliano, Flávia, Adriana, Cláudia, Felipe, Henrique, Vera, Raquel e tanta, tanta gente! Esqueci alguém? Perdoa! ;)
Escrito por Luciana M. às 21h40
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Outono
Este é para você que aguentou meu mau humor o final de semana TODO. Para você, que não se importou de me dar carinho, mesmo nas horas em que eu queria cravar uma faca no coração. É fato, tempestades existem, eu odeio, mas depois começa o tempo bom, é o que dizem.
Agora é outono, você gosta desse tempo frio, eu também. Cobertores, vinhos, bebidas quentes, toda sorte de coisas e coisinhas agradáveis para gente fazer e ver e ser no frio (quase) gelado do outono. Outono de folhas amarelas. Outono que, no Brasil, se traduz em quaresmeiras de flor lilás.
Queria dizer as palavras mais doces esta noite (parodiando Neruda), mas elas fogem, as palavras são traiçoeiras e vãs. O amor é mais forte: ele fica.
Este é para você.
Escrito por Luciana M. às 21h50
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A rose is still a rose
Oh! o título desta birosca é rosa! rosa! Só descobri isso hoje, tô emocionada. Desculpem o surto.
Escrito por Luciana M. às 20h19
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What do you know about the truth? ou Mera ficção
"A verdade? Meu pessoal decide a verdade em 60 países todo dia. E ela é diferente em cada um. A verdade é a explicação que a maioria das pessoas quer".
Esta eu tirei do insólito filme "O Hotel de Um Milhão de Dólares", do Wim Wenders. E poderia ser repetida diariamente em cada redação de jornal. Por isso eu acredito pela metade em tudo o que leio, em qualquer lugar. A linha entre a ficção e a realidade é muito tênue, quase invisível. Verdade? Verdade absoluta não existe. Existe o que mostram, e o que queremos ver, basicamente. É o que vende jornal e paga nossos salários, miseráveis jornalistas que somos.
Escrito por Luciana M. às 20h15
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Sexta-feira
Toda sexta-feira é assim. Arrumo a casa, trago flores, a toalha branca na mesa, guardo as tintas, queimo incensos, banho longo, maquiagem perfeita, perfume.
Conto as horas: três da tarde. Falo com amigos, tento fazer compras, o pensamento freqüente me impele a cuidar de mim.
Conto as horas: sete da noite. Ansiosa, ligo a tv e o rádio e canto alto e mal ouço o que dizem os vizinhos. A novela corre. Queria pintar algo que dissesse tudo, ainda não.
Conto as horas: oito da noite. Ele já está por vir.
Nove. Dez. Onze. Meia-noite. Um problema qualquer e o trabalho interrompeu seus passos. A faculdade. Os amigos carentes. A cerveja no bar. Sinuca? Claro.
Claro. Madrugada. Toda sexta-feira é assim. Mas agora já é sábado. Estou com sono. Ansiedade com olheiras escuras. Desarrumo a cama. Um dia ele chega no horário.
Oito da manhã. Já é dia.
Escrito por Luciana M. às 20h41
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Medo!
Ei, o mundo anda perigoso. Lello, lembra de Murphy? Ele atacou novamente. Só porque a gente queria ir pra Madri, hein? Acabaram com os espanhóis. Evil. Eles (eles quem?) querem dominar o mundo! Morrem inocentes de ambos os lados, a gente sabe. Que lados? Há um "mal" sub-reptício, algo incontrolável, e pior, imprevisível, que está tentando subverter toda e qualquer ordem. É fácil culpar a Al-Qaeda. É fácil culpar grupos terroristas. Difícil é diminuir os motivos para gerar a revolta.
Ah! E também tem a Paixão de Cristo, do Mel Gibson. Eu não vou ver. Os que me conhecem, sabem o motivo. Não, não é anti-semitismo. É medo. Puro medo da violência e da crueldade desmedidas.
Oh! Mas na televisão mais de 190 pessoas que iam para o trabalho, ou encontrar a namorada, ou estavam voltando para casa depois da bebedeira feliz estão.... mortos? Mortos. Cruel, baby. Pericoloso mondo.
Mas a vida é uma festa, não?
Não? Mas deveria ser.
Difícil.
Escrito por Luciana M. às 20h03
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"It´s like I hardly see the sky some days it´s like you hardly said a word..."
Queria escrever alguma coisa que prestasse. Mas só consigo imaginar letras de músicas. E tenho imagens na cabeça, mas não consigo colocá-las no papel. E estou preocupada com minha conta bancária. E odiei os atentados na Espanha. E pensar que Almodóvar é espanhol. E que Hable con Ella é um dos melhores filmes que já vi. Quero pintar a cena do balé final. Alguém consegue uma imagem dela?
Escrito por Luciana M. às 15h22
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Musical
Às vezes a gente tem medo. Olha para trás, e é um abismo. O passado dói, e o medo do que vem é grandioso, paralisa os membros, dói na carne. As músicas dizem isso. Gosto delas. Se tivermos sempre medo de olhar adiante, as grandes tardes douradas, as noites claras, as longas viagens de amor nunca aparecem. A vida é assim, encontros e despedidas, como na música.
"Encontros e Despedidas
Mande notícias do mundo de lá, diz quem fica me dê um abraço, venha me apertar, tô chegando coisa que gosto é poder partir sem ter planos melhor ainda é poder voltar quando quero
todos os dias é um vai e vem a vida se repete na estação tem gente que chega pra ficar tem gente que vai pra nunca mais tem gente que vem e quer voltar tem gente que vai e quer ficar tem gente que veio só olhar tem gente a sorrir e a chorar
e assim, chegar e partir, são só dois lados da mesma viagem o trem que chega é o mesmo trem da partida a hora do encontro é também despedida a plataforma dessa estação é a vida desse meu lugar é a vida desse meu lugar é a vida..."
(Ouça na voz da Maria Rita, filha da Elis Regina)
Escrito por Luciana M. às 00h52
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Metade
"E que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que eu sei. Que a morte de tudo que eu acredito não me tape os ouvidos e a boca. Porque metade de mim é o que eu grito, mas outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe seja linda ainda que entristeça. Que o homem que eu amo seja para sempre amado, mesmo que distante. Porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor; sejam apenas respeitadas como a única coisa que resta a uma pessoa inundada de sentimentos. Porque metade de mim é o que ouço, a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço. Que essa tensão que me corrói por dentro seja, um dia, recompensada. Porque metade de mim é o que canto, a outra metade é o que penso.
Que o medo da solidão se afaste e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável. Que o espelho reflita em meu rosto o doce sorriso que me lembro ter dado na infância. Porque metade de mim é a lembrança do que fui e a outra eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito. E que o seu silêncio me fale cada vez mais, porque metade de mim é abrigo mas a outra é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta mesmo que eu não saiba, e que ninguém a tente complicar, porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer. Porque metade de mim é a platéia e a outra metade canção.
E que minha loucura seja perdoada, porque metade de mim é amor e a outra metade também".
(Oswaldo Montenegro)
Escrito por Luciana M. às 12h06
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A roda do mundo
As pessoas vão e vêm. Parece que todos estampam sorrisos, eu continuo esperando agrados, afagos, que saco essa história de ficar triste sem motivo. Que saco passar o dia todo na internet lendo notícias inúteis, mulheres que assinam contrato com a Playboy, milhares de idéias perdidas em blogs, diálogos eletrônicos (e tão somente eletrônicos) com os amigos, sem convivência real. Beijos de mentira. Olás e ois perdidos no vazio da grande rede. Acho que estou estressada, preciso de férias, ilhas paradisíacas, beijos de verdade, um mês inteiro para fazer nada, mas... O que eu faria se tivesse um mês de férias? Talvez transferisse esta solidão para outro lugar mais bonito, só isso. É tudo uma questão de ritmo: as pessoas estão felizes porque elas se acompanham. A roda do mundo continua girando e não vai, não quer, não precisa se preocupar comigo.
Escrito por Luciana M. às 19h18
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"Esperamos pela vida, vivendo só de guerra."
Escrito por Luciana M. às 14h21
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A idade de todas as coisas
Fale-me de amor. Fale daquelas fotografias que envelhecem na minha maleta de viagem. Fale alguma coisa que me faça sentir bem, e naquelas tardes de chuva, seqüestre-me. Dê-me motivo. Eu vejo fotos, vejo casais, vejo pessoas felizes. E eu? Não sei onde procurar isso, eu sei, eu sei que não devo dizer, você me diz isso, mas o que faço? Algumas imagens remetem a você. Outras me remetem ao mundo, àquele mundo que talvez já tive e envelheceu comigo em dez anos. Não concordo com meu cabelo, não concordo com esta casa que não me pertence, não concordo com passar estas noites sozinha, por que eu? Não poderia ser mais simples?
Até faz uma noite bonita, mas é como se eu visse somente neve. Fria, fina, cortante, meu coração ficando azul. Nunca mais aquele vermelho antigo de rosa, de botão de rosa perfumada.
Nunca mais.
E já faz tempo que não é assim. Talvez nunca tenha sido, quem pode precisar o limite entre o que vivemos e o que imaginamos? Tudo pode ser mera criação, eu acho.
Já sonhei com planícies verdes, já sonhei com filhos e crianças correndo, já sonhei com um bom cargo numa boa redação num bom jornal, já sonhei com dormir abraçada com meu homem todas as noites, mas futuro, mesmo, não sei onde.
E cada mergulho neste mundo fictício de internet é um mergulho no escuro e na dor. Às favas com a preocupação de escrever coisas felizes; o artista é um triste. Sou artista.
Poeta, melhor dizendo. Vivo de migalhas do que encontro, vejo, ouço, percebo. Migalhas emocionais, fotos, malditas fotos que entregam minha dor.
Não quero mais fazer o que faço. Quero criar, mas o que? O tempo, a imagem dele, sempre me persegue, como se eu só conseguisse passos errados. Wrong way, dear. Wrong way.
Escrito por Luciana M. às 14h19
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